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A MÃO ABERTA
No pano que eu bordo, vês as tintas
que coloram a vida, coisas que eu
não vejo, mas almejo por que sintas
o que eu pinto na música de Orfeu.
Por que escolho o verde, eu não sei,
e se ele vira rubro, também não!
Até parece a corte sem o rei
e os vassalos dançando num salão...
Não é preciso o rei, nem presidente,
nem poeta pra bordar o sentimento;
o próprio mundo o faz no seu presente...
Se alguém deixar a mão aberta ao vento,
todo o movimento se lhe agarra
a bordar qualquer tela sem amarra.
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MARAVILHA

É lindo o dia nascido da alegria
com as aves trinando cá por dentro;
é lindo o sentimento: a harmonia
de quem, estando dentro, é seu centro.
Todo o dia maravilha esta alegria
dentro da harmonia, pois é o centro
que centraliza toda a energia;
que lindo ser o centro do que é dentro!
O mundo nos pertence e nos expia;
tem tudo o que tu és e te sobeja,
mas só tens o que és que te proteja.
Lindo é este dia de alegria,
irradiando de dentro do seu centro,
o melhor vento quente em movimento!
- AMBIGÜIDADE

Amai-vos uns aos outros, disse Cristo!
Frase velha, mais nova que a cultura...
Porque a cultura é outra, menos pura,
e o homem insiste em não ver isto.
Insiste na ganância, no sucesso,
e quer ser superior por modos tortos,
tortos e tortuosos com esforços
de meter no redil os mais ingénuos.
Amai-vos uns aos outros, chave santa,
frase ambígua, engodo e artimanha
para meter na cerca o rebanho...
Se Cristo aqui voltasse hoje em dia
e repetisse igual apologia,
outra vez a via sacra subiria!
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FELIZANDAR
É uma dor profunda, a que atinge
o verso do soneto que não mente;
é uma dor real que também finge
e que pensa que a doença está presente!
Dói com a alma, sim, dói no sentimento,
no anverso e no reverso e na razão;
é um renascido avesso contentamento
pela saudade posta em emoção...
É um sentir masoquista esta dor,
castigado em prazer pelo vil Sado,
mas é também amor por se anular.
É uma dor confundida com ardor !
Mas sabe ser feliz e angelicado
quem tiver adquirido o verbo amar.

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AMIGOS
Verdadeiros, alguns, e fazem festa
quando num bom convívio reunimos
essa nossa alegria que atesta
quanto afecto por todos nós sentimos.
A amizade não é racional, mas
também pode ser isso, e mais que isso,
e pode abranger todas as almas
que foram gémeas neste compromisso.
A amizade é tolerar qualquer defeito
que seja pelo Bem, bem tolerável,
pois que não há na terra ser perfeito.
E é também ouvir quem é afável,
ou quem ajuda bem a ultrapassar
a tormenta que fermenta pelo ar.

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O AMOR
O frio que suportei na minha infância
apenas me curtiu a pele tenra;
e a amargura, que já não mais me lembra,
perdeu-se no amor em consonância.
O frio, o espinho e a maleita,
o sangue, a repulsa e o confronto,
mas também o amor em contraponto,
tornam a criatura mais perfeita.
Não é porque fui bom, que sou assim,
nem sequer seja mister o que faço,
mas fui preso ao amor por um bom laço.
E não há volta a dar-lhe nesta vida:
Aprender todo o dia até ao fim
e a pessoa faz melhor, se for querida.
AVES E TOUPEIRAS
A toupeira não voa; não a queirais
com asas nos portais. Ela nasceu
para esburacar nossos quintais
e não para voar no ar como Orfeu
Deixai-as esburacar todo o terreno,
não queirais que se elevem no espaço
porque o seu território é lugar pleno
da ave que ilumina o sol baço
A ave voa chilreia canção de fado
saúda todo o dia o seu futuro
e a toupeira lavra mais um furo
A ave e a toupeira não se entendem,
cada qual tem lugar bem reservado
e nem sequer prò mesmo lado pendem.
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